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18 junho 2010

A Homossexualidade no Estado Novo



Ora, no Estado Novo defendia-se a família tradicional. A mulher era submissa ao chefe de família, seu marido. O seu 'trabalho' era parir e cuidar da casa e dos filhos. Por este motivo e por preconceito, a homossexualidade em Portugal sempre foi escondida do olho público e até perseguida.

Se cá se vivia em tabu, foi no ultramar que as "tendências homossexuais" viveram os seus anos de glória. Afastados das gajas e com a pilinha aos saltos, muitos não resistiram (aos suores, corpos musculados, banhos de sabonete em conjunto, às fardas... - honestamente quem resistiria?!) e viram-se enrolados com outros homens, descansados porque teriam a sua amada, pura e singela, à sua espera (e mesmo que fornicassem com uma bicha, não se tornavam homossexuais). Mas estavam enganados, já levavam o bichinho (ou a bichinha) dentro deles. Muitos até viveram grandes amores e acabaram por se suicidar, tal era o medo de se assumirem.

De volta à metrópole, Salazar também tinha encontrar o seu amor gay, o chefe da PIDE fez regressar os valores "morais" da religião cristã, onde a sexualidade era (e é) vista apenas como meio para a procriação e com a definição vincada para cada um dos sexos (os homens trabalhavam e sustentavam a família, as mulheres cuidavam dos filhos e da casa). Assim, assiste-se à repressão de todas as orientações sexuais, bem como dos actos homossexuais, vistos como "vícios contra a natureza".

Além disso, a censura também invadiu todo o conteúdo homossexual artístico (nacional e estrangeiro), numa tentativa de evitar a quebra dos tabus morais vigentes. A PSP manteve vigilância apertada aos locais de encontro de homossexuais, efectuando rusgas que serviam para identificar e cadastrar ou prender os presentes.

Os homossexuais e outros acusados de condutas imorais ou vadiagem (prostitutas, chulos, doentes mentais, mendigos...) eram escondidos da sociedade e eram muitas vezes internados por longos períodos em estabelecimentos específicos de "reeducação", nos quais foram admitidos, para tortura e maus tratos, desde 1933 a 1951 mais de 12 mil pessoas. 

Júlio Fogaça foi perseguido e torturado pela PIDE, acabando por ser preso e deportado várias vezes. Mas foi por ser acusado de "pederasta passivo e habitual na prática de vícios contra a natureza", que o fez ficar sem liberdade. A acusação de homossexualidade também serviu para ser afastado do Partido Comunista Português, não sendo o único.

Após a Revolução do 25 de Abril começaram a ser criadas as primeiras organizações homossexuais, que foram esmagadas na televisão pelo General Galvão de Melo, que afirmou que o 25 de Abril não se havia feito para os homossexuais e as prostitutas (que devem, no entanto, ter recebido a visita do general!) reivindicarem os seus direitos. As organizações ganharam, finalmente, força e respeito com o aparecimento da SIDA, nos anos 80 (o que é muito triste).


3 comentários:

Cp disse...

Meu Deus ... como era viver nessa altura! :/

pinguim disse...

Meu caro Cp
tens toda a razão; em boa hora o Filipe teve a ideia de postar este texto excelente.
Por ter testemunhado "realmente" a situação dos homens das forças armadas na guerra colonial, posso dizer sem exagero que mais de 60% de quem lá esteve teve relações homossexuais (muitas delas não continuadas no regresso) e eu tive sexo com vários homens casados e pais de filhos lá.
Curiosamente, há cerca de um ano, recebi aqui em minha casa um amigo que esteve comigo na tropa em Moçambique e com quem fiz sexo várias vezes, e que já não via há mais de 30 anos: conversámos sobre muita coisa, sei que que já foi casado 2 vezes, tem filhos e netos, mas não abordámos minimamente a questão.
Como ele há muitos, e posso assegurar que quando ele fazia sexo, o fazia com muito gosto e não apenas para esvaziar os tomates...

E no Estado Novo havia aquelas pessoas que toda a gente sabia, mas a que se fechava os olhos: João Vilarett, Paulo Renato, Nicha Cabral, Pedro Homem de Melo, Irene Isidro, etc.
Mas a arraia miúda era perseguida e intimidada.

Filipe M. disse...

Pinguim, sempre me pareceu que tivesse muito para partilhar, sobre a homossexualidade na guerra colonial.

O facto de estarem isolados, em perigo, afastados de casa, vulneráveis, acho que deixava qualquer um carente e mais propício a não resistir, da maneira como se resiste hoje em dia.

Só lamento alguma da hipocrisia...

O meu pai teve em Moçambique e a primeira coisa que disse quando eu assumi gay foi para 'eu me deixar disso'... Pergunto-me se ele se deixou 'disso'...